segunda-feira, 17 de abril de 2017

Odebrecht: PT pediu R$ 57 milhões para comprar apoio de partidos

EDUARDO BRESCIANI

Segundo delação de Marcelo, sigla queria tempo de TV em 2014

O empresário Marcelo Odebrecht afirma em sua delação premiada que o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega lhe pediu arcasse com despesas de R$ 57 milhões para comprar o apoio de sete partidos (PROS, PDT, PRB, PCdoB, PSD, PP e PR) que fizeram parte da chapa formada por Dilma Rousseff e Michel Temer em 2014. No início de março, em depoimento ao Tribunal Superior Eleitoral, os delatores da empreiteira já haviam confirmado repasses de cerca de R$ 30 milhões a PROS, PDT, PRB e PCdoB para garantir à chapa Dilma-Temer tempo maior no horário eleitoral gratuito de TV e rádio, mas, no depoimento à Lava Jato, Marcelo Odebrecht revela que o esquema era mais amplo. A defesa de Guido foi procurada pelo GLOBO no sábado à noite, mas não atendeu a ligação.

Segundo o relato de Marcelo, o ex-ministro já lhe apontou com quem deveria ser tratado cada assunto. Os repasses deveriam ser combinados com Eurípedes Júnior (PROS), Carlos Lupi (PDT), Marcos Pereira (PRB), Fábio Tokarski (PCdoB), Antonio Carlos Rodrigues (PR), Ciro Nogueira (PP) e Gilberto Kassab (PSD). O ex-presidente da Odebrecht disse que dois ou três dias após o pedido inicial recebeu um telefone de Mantega lhe perguntando se tinha resolvido todos os casos. Marcelo disse que ainda não tinha conseguido. Mantega, então, lhe disse que não precisava mais pagar para PR, PP e PSD.

“No fundo eu entendi o seguinte, que era era uma obrigação da candidatura Dilma de bancar em certo montante os outros partidos. No final das contas não consegui (o dinheiro) a tempo, aí eu fui, voltei na segunda com Guido e disse: “Não deu”. Ele disse: “Eu já resolvi 37”. Por isso que nas minhas notas (do celular apreendido) está cancelado. O PR, o PP e o PSD, que eram R$ 37 milhões originais, ele resolveu com outra empresa ou alguém, ele não me falou. Então alguém pagou esses 37”, diz.

Assim coube à Odebrecht pagar R$ 20 milhões para PROS, PDT, PRB e PCdoB. Marcelo ressalta ainda que houve outro pedido depois de mais R$ 4 milhões para o PCdoB. O executivo conta que o pedido foi feito em uma reunião entre maio e junho de 2014, às vésperas das convenções nas quais os partidos definem seus candidatos. O pedido foi feito após Marcelo lhe dizer que tinha dificuldade de movimentar dinheiro devido ao início da Operação Lava-Jato.
“Vamos ver se consegue doar para os partidos. Segundo ele, quando fechava apoio a partidos, você se comprometia, a presidente se comprometia a apoiar esses partidos no fechamento dos partidos da coligação. Escutei valores de toda e qualquer natureza, de até 100, 200, mas isso não posso precisar’, disse o ex-presidente da Odebrecht.

Ele conta que, após o pedido de Mantega, tratou do tema com Edinho Araújo, tesoureiro da campanha, e Alexandrino Alencar, ex-diretor da empresa.
“O primeiro pedido dele para mim foi de R$ 57 milhões para atender a essas pessoas. Aí, eu sai da reunião. Aí sentei eu, Edinho e Alexandrino. Eu falei, Edinho, veio esse pedido. Edinho sabia desses compromissos e o Alexandrino tinha que operacionalizar”, afirmou .

Marcelo disse que o ano de 2014 foi muito ruim porque a empresa teve várias pendências com o governo. Ele diz que chegou a fazer um texto com vários problemas que a empresa tinha enquanto doava milhões para a campanha. Afirma que mostrou as anotações, que tinham entre 5 e 7 páginas de texto, para Dilma, Mantega e Edinho.

PARTIDOS NEGAM ILEGALIDADE
Por meio de nota, o PROS diz que a direção nacional do partido “desconhece as afirmações citadas e ratifica que suas movimentações financeiras estão dentro dos parâmetros estabelecidos pela Justiça Eleitoral”. A assessoria do PDT diz que “o ônus da prova cabe ao acusador” e que o partido foi o primeiro a declarar oficialmente apoio à chapa de Dilma. “Isso já comprova, diante das datas apresentadas pelo delator, que o anúncio aconteceu meses antes do suposto pagamento”.

Já o PRB diz que o ministro Marcos Pereira está à disposição da Justiça e que “agiu sempre dentro da lei enquanto presidente de partido, buscando doações empresariais, respeitando as regras eleitorais”. O PCdoB afirma que a acusação do delator é “completamente descabida”.

O PSD disse que "desconhece tal informação, não recebeu qualquer comunicação ou doação como as relatadas, não autorizou a outros partidos a solicitação de doações eleitorais em seu nome, e reafirma que sempre pautou sua atuação no estrito cumprimento da legislação". Procurados, PP e PR não se manifestaram.

O GLOBO

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