segunda-feira, 6 de março de 2017

Impulsionado pela revolução do xisto, setor de fertilizantes vive boom nos EUA

LUCY CRAYMER de Hong Kong e
RHIANNON HOYLE de Sydney

Enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, promete revigorar a indústria do país e recuperar o espaço perdido para a China, o processo já está em andamento no setor de fertilizantes, onde as empresas americanas vêm crescendo fortemente.

A produção de ureia, um importante fertilizante a base de nitrogênio, aumentou em cerca de 10% no ano passado, impulsionada por várias novas unidades e outras que foram expandidas em vários Estados, que ajudaram a aumentar a capacidade total em 24%. Enquanto isso, a produção na China, o principal produtor mundial de fertilizantes, caiu 7% em 2016 e as exportações recuaram em cerca de 35%.

Essas mudanças nos rumos do setor não se devem à intervenção do governo, como maiores tarifas de importação ou súplicas para “comprar nos EUA”. Em vez disso, elas se devem em grande parte às tendências do mercado global de petróleo.

Os fabricantes de fertilizantes estão se beneficiando da revolução gerada pelo petróleo de xisto. A combinação do fraturamento hidráulico e da perfuração horizontal têm ampliado significativamente a produção, reduzindo o custo do gás.

E, nos EUA, o gás é um ingrediente chave para os fertilizantes a base de nitrogênio, como a ureia — que é principalmente usada diretamente no solo — e amônia, que normalmente é misturada com outros produtos, ou refinada para produzir ureia.

Enquanto isso, seus concorrentes na China têm sido prejudicados pela forte alta nos preços do carvão, o que se seguiu à decisão de Pequim no ano passado de limitar a produção, restringindo as antes amplas ofertas do combustível. Em torno de 75% da ureia da China é produzida a partir da transformação de carvão em gás.

“O baixo custo do gás de xisto nos EUA transformou a competitividade de vários setores onde a energia representa uma grande fatia dos custos dos insumos”, diz Rajiv Biswas, economista-chefe para Ásia e Oceania da firma de pesquisa IHS Global Insight. “Um dos maiores beneficiados foi o setor químico americano.”

O aumento na produção de fertilizantes nos EUA vai provavelmente continuar este ano, à medida que novas fábricas planejadas há tempos entram em operação. A capacidade de produção de amônia nos EUA pode aumentar 2 milhões de toneladas este ano, para cerca de 11,4 milhões de toneladas, estima o chefe de pesquisa agrícola doSociété Générale, Rajesh Singla.

A capacidade de produção de ureia também pode crescer 4,1 milhões este ano, com pelo menos cinco novas fábricas gigantescas, de acordo com a firma provedora de dados de mercado ICIS, colocando os EUA rumo a um aumento de 50% em sua capacidade de produção entre 2015 e 2020.

A fabricante de fertilizantes CF Industries, com sede no Estado de Illinois, apenas concluiu um desses projetos, a expansão da sua fábrica de nitrogênio Port Neal, no Estado de Iowa, no centro do cinturão do milho nos EUA.

“Considerando o custo do gás nos EUA que vislumbramos no longo prazo, pensamos que este era o lugar certo para investir”, diz o diretor-presidente da empresa, Tony Will. A estimativa é que a fábrica produza 816,5 mil toneladas de amônia e 1,27 milhão de toneladas de ureia por ano, empregando cerca de 100 pessoas.

Com uma produção maior de fertilizantes migrando para os EUA, a importação de ureia caiu 34% no ano passado. Apesar de a China ainda ser o maior exportador, a sua participação no mercado global de ureia caiu de 43% para 39% entre 2015 e 2016, de acordo com o CRU Group, consultoria especializada em commodities.

A vantagem de custo dos EUA é crucial. O custo médio da produção de uma tonelada de ureia nos EUA usando gás é de US$ 130, estima o CRU. Já na China, usando carvão antracito, esse valor fica entre US$ 180 e US$ 210. O gás representa em torno de 60% e 80% dos custos de produção, dependendo da eficiência da fábrica e do preço do gás, de acordo com a fabricante OCI Americas Inc.

“Muitas fábricas [chinesas] ineficientes saíram da indústria [..] 12,6 milhões de toneladas de capacidade de produção de ureia saíram da indústria entre 2013 e 2016”, diz Gavin Ju, consultor sênior do CRU em Pequim.
O custo barato de energia tem atraído empresas de fora dos EUA, como a australiana Incitec Pivot Ltd., que decidiu em 2013 instalar uma fábrica de amônia de US$ 850 milhões em Waggaman, na Luisiana. A unidade, com capacidade de 800 mil toneladas, começou a operar em outubro e deve este ano ir gradativamente ampliando o volume atual de produção.

“Por causa da vantagem energética possibilitada pela revolução do gás de xisto, os produtores de fertilizantes dos EUA estão entre os mais competitivos do mundo”, diz o diretor-presidente da Incitec Pivot, James Fazzino. Segundo ele, o investimento em Waggaman hoje se mostra melhor do que quando foi aprovado.

“Se o atual governo cumprir as promessas em torno da vantagem energética, cortando a burocracia desnecessária e desenvolvendo um ambiente tributário atraente, essa vantagem vai se tornar ainda mais pronunciada”, diz ele.

A holandesa OCI Americas, enquanto isso, está prestes a concluir uma fábrica de fertilizantes nitrogenados em Wever, no Iowa, com capacidade para entre 1,5 milhão e 2 milhões de toneladas. Só ela será capaz de ampliar a capacidade de produzir ureia nos EUA em mais de 10%. A proximidade com clientes dos EUA, especialmente os 2,1 milhões de produtores agrícolas do país, é outro fator importante.

“Os produtores estrangeiros têm custos logísticos significativos para entregar o produto nos EUA, incluindo frete marítimo e terrestre, armazenagem e taxas de processamento, que podem chegar a US$ 100 a tonelada dependendo do produto”, diz Ahmed El-Hoshy, diretor-presidente da OCI Americas.

A alta dos preços da ureia conforme as exportações chinesas diminuem é outro fator positivo na indústria americana de fertilizantes.
Com certeza, os preços mais altos para a venda do produto, somados aos preços mais baixos do carvão e ao yuan desvalorizado, poderiam revigorar as vendas chinesas de fertilizantes ricos em nitrogênios no mercado global.
Ainda assim, os fabricantes americanos devem continuar registrando margens melhores do que a maioria dos concorrentes em outros lugares, mantendo intacto o boom na indústria e permitindo que os EUA reduzam significativamente as importações nos anos que estão por vir, segundo analistas do Citigroup Inc.


The Wall Street Journal

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