quarta-feira, 16 de julho de 2014

Brasil pode ser “bom presidente” de banco do BRICS

Está sendo realizada, em Fortaleza, Ceará, a reunião dos cinco países do BRICS. O embaixador José Botafogo Gonçalves, vice-presidente emérito do Centro Brasileiro de Relações Internacionais, o CEBRI, o que é uma das maiores autoridades em economia e comércio exterior do Brasil falou em entrevista à Voz da Rússia sobre a importância deste encontro. 

– Que importância o senhor atribui à reunião do BRICS no Brasil?

– Esse grupo representa uma realidade muito importante porque são países de grande dimensão territorial, com grande população, países que estão tendo a sua atuação internacional crescente no cenário internacional.
Eu diria o seguinte: a principal característica do BRICS é que são países gigantes. A África do Sul entrou no grupo por razões políticas. Mas tem sentido, porque a parte do sul é talvez a mais dinâmica do continente africano. Ela representa um poder emergente e importante que é o poder africano, que está iniciando o retorno à cena internacional, não obstante muitos problemas graves que tem. A África, um continente desesperado nos séculos XIX-XX, passa a ser um continente de muita esperança para o século XXI.

– Nesta terça-feira, dia 15 de julho, os presidentes do Brasil, China, Rússia, África do Sul e o primeiro-ministro da Índia deverão anunciar a criação do Banco de Desenvolvimento do BRICS, assim como a formação de um Acordo Contingente de Reservas e de órgãos de cooperação e comércio interno e, posteriormente, externo. Que importância o senhor atribui a este Banco de Desenvolvimento do BRICS?

– Segundo eu acabava de dizer, o Brasil, a China, a Índia, a Rússia, a África do Sul são países que têm uma enorme potencialidade no campo de investimentos de infraestrutura: infraestrutura energética, infraestrutura de produção de alimentos. De maneira que um banco de desenvolvimento que esteja voltado para favorecer os investimentos na área da produção de energia e de alimentos é uma ideia extremamente positiva. Eu acredito que a Rússia, a China, o Brasil, a Argentina têm um papel muito importante da produção de energia e de alimentos. E eu acredito que é muito útil que tenha um instrumento de financiamento voltado para realizar as oportunidades e as possibilidades de investimento.

– Dos cinco países do BRICS um que parece ter as melhores condições econômicas do momento é a China, tanto como se dá como certa a cidade de Xangai como sede deste Banco. Entre tanto, fala-se que há uma pressão por parte da Índia para que Nova Deli venha a ser a sede do Banco de Desenvolvimento do BRICS. A seu ver, embaixador, qual é o país que deve ser a sede deste Banco?

– Esta é uma questão econômica e política. O importante, em uma situação dessas, não é a sede geográfica do banco, mas os critérios segundo os quais o banco vai funcionar. Se o banco vai apoiar os critérios de rentabilidade econômica, os critérios de retorno do capital investido, os critérios de sustentabilidade ambiental, os critérios que permitam que esses investimentos frutifiquem a favor de uma política cada vez maior de inclusão social das classes menos favorecidas. Então, a questão do local é secundária.
Embora politicamente seja muito importante você ser a sede do Banco de Desenvolvimento, eu não diria que seja uma questão importante do ponto de vista da substância econômica. É uma questão importante do ponto de vista da imagem. Mas o importante é o seguinte. Se esse banco selecionar projetos de rentabilidade concreta, retorno do capital investido, eu acho que esse banco terá sucesso, ainda que esteja localizado no país A, no país B ou no país C.

– O senhor notou que é uma questão mais da substância política do que econômica. E neste particular, o Brasil aspira presidir esse Banco. E como tal, o Brasil poderia perfeitamente ser o primeiro presidente do Banco. Isto mostra a relevância do Brasil no exterior, embaixador?

– O Brasil é um país importante no conjunto dos países do BRICS, e o Brasil tem perfeitamente a condição de ser o presidente do Banco. Agora, não nos iludamos. A presidência do Banco do BRICS não é para fazer uma política nacional, anticapitalista, antiamericana, antimercado internacional, uma política de exclusão dos interesses, dos recursos internacionais.
Nós temos que levar em conta que, queiramos ou não, as pessoas que investem recursos querem retorno para os seus recursos. Se não nos bolivarizamos, achamos que a política de retorno do capital estrangeiro é uma política negativa, que nós temos que investir só em projetos que não deem retorno ao capital privado internacional, então nós faremos exercer a nossa presidência. Pelo contrário: a presidência é para elevar o banco, reconhecer a realidade internacional, reconhecer a verdade do comércio internacional, de canalizar para recursos de investimento e infraestrutura que os países do BRICS têm enorme potencialidade de realização. Então, o Brasil poderá ser um bom presidente.

– Embaixador, a Argentina participará do encontro do BRICS em Fortaleza, a presidente Cristina Kirchner é convidada pelo presidente da Rússia Vladimir Putin e o presidente da China Xi Jinping já adiantou a possibilidade de a Argentina vir a se integrar no BRICS. Assim, a letra ganharia a letra A. Em vossa opinião, que contribuição a Argentina tem a prestar ao grupo BRICS?

– Eu acho que a Argentina e o Brasil são dois países que têm enorme potencialidade na produção de energia e de alimentos. Dentro deste contexto, não é a Argentina. É a Argentina, o Brasil, o Paraguai, o Uruguai – os países fundadores do Mercosul – que têm uma perspectiva positiva de serem grandes contribuidores para o futuro da humanidade na produção de energia e alimentos.
A ideia de participar do BRICS, eu acho uma ideia meio extravagante. Porque a Argentina não quer participar de nenhum organismo internacional. A Argentina insiste na ideia de que ela tem de ser sozinha e resolver os seus problemas. Então, o problema não é se essa ideia de a Argentina participar do BRICS é boa ou ruim. O importante é o que a Argentina quer.
Se a Argentina quer ser um país separado do resto do mundo, como Cristina Kirchner indica, quer fazer a sua vida própria, não tem sentido fazer parte do BRICS.Se ela quiser fazer parte do BRICS, e ela será bem-vinda, ela terá que mudar profundamente a sua política macroeconômica, industrial, agrícola e tem que ser consistente com os objetivos de um grupo de países que quer ter uma participação importante na arena internacional e na governança mundial. Hoje a Argentina optou por ficar isolada do resto do mundo.

– Como o senhor vê o comércio exterior neste momento?

– O Brasil precisa tomar uma decisão muito importante. Ou ele faz parte da comunidade internacional ou não faz parte. Se o Brasil quer ter competitividade na indústria (na agricultura nós já somos competitivos desde 1500). Isso significa montar cadeias de valor na produção dos nossos bens industriais que sejam mais abertas. A política deste governo é uma política que marcha em direção oposta. Ela quer impor critérios de conteúdo nacional.
A indústria brasileira tem que se abastecer ao longo da sua cadeia produtiva de bens e serviços, produtos intermediários, fabricados no Brasil. Essa é uma ideia que já era velha em 1950. Hoje está mais do que arcaica, está embolorada, está enferrujada. Hoje nós temos que fazer o que a China faz, o que a Coreia faz, o que a Alemanha faz, o que os Estados Unidos fazem: é integrar a nossa indústria em uma cadeia produtiva em que ela tenha a possibilidade de que cada elo da cadeia importe os produtos que deem maior produtividade ao seu produto final. E isso nós não estamos fazendo ainda, o governo brasileiro insiste em uma ideia velha: “Vamos comprar nacional!”
O resultado é dramático, catastrófico para a competitividade na indústria. Com a Argentina em crise, a nossa exportação caiu gravemente. O problema nosso é mudar nossa política industrial. Se fizermos isso, poderemos observar nos próximos 30-40 anos uma prosperidade importante. Nós temos sol, nós temos terra, nós temos produtos energéticos, nós temos ar, nós temos água – tudo que faz falta no século XXI abunda no Brasil. Vamos fazer uma boa política inteligente.



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