terça-feira, 21 de novembro de 2017

Presidente alemão dá garantia a Merkel e descarta novas eleições

AFP

Após fracasso em negociações para formar governo, chanceler federal busca ex-aliados

BERLIM - Horas após a chanceler federal Angela Merkel fracassar nas negociações para formar seu quarto governo, ela escapou do maior receio: de ter o Parlamento dissolvido e novas eleições, convocadas. Enquanto ouve o rechaço dos ex-aliados do Partido Social-Democrata (SPD) para formar o governo, Merkel ganhou um voto de confiança: o presidente Frank-Walter Steinmeier decidiu dar mais tempo a ela para tentar garantir uma ampla coalizão que lhe dê um governo estável, apelando a outros partidos para que se disponham a negociar.

— A missão ainda está nas mãos dos partidos: não se pode simplesmente devolvê-la aos eleitores — afirmou Steinmeier após encontrar-se com Merkel. — Todos os partidos políticos têm uma obrigação de interesse comum de servir ao país. Espero de todos a prontidã para conversar e fazer possível um acordo de governo num futuro próximo.

Ex-presidente do Parlamento Europeu e líder do SPD, Martin Schulz disse nesta segunda-feira que seu partido não estava disponível para novas negociações e que "não tem medo de novas eleições". Ele afirmara não ter sido contatado ainda por Merkel.

— Nesta situação, o soberano, que são os eleitores, deve abordar diretamente a situação.

Merkel começou já a buscar uma saída para a crise na Alemanha, depois de não conseguir formar um governo, um terremoto político que pode levar à realização de novas eleições legislativas e ao fim de seu mandato de chanceler. Desde a fundação da República Federal da Alemanha em 1949, este cenário jamais aconteceu: o país não tem uma maioria para ser governado. Nesta madrugada, depois de um mês de procrastinação e negociações, os conservadores de Merkel (CDU-CSU), os liberais (FDP) e os ambientalistas não conseguiram formar um governo de coalizão.

Na ausência de uma alternativa, a maior potência econômica europeia se prepara para semanas ou meses de paralisia, tanto a nível nacional quanto europeu. De fato, no atual estado, eleições antecipadas parecem ser a solução mais provável, uma vez que Merkel excluiu um governo minoritário e seus antigos aliados social-democratas recusaram qualquer coalizão sob o comando da chanceler. Os alemães podem ter que retornar às urnas no início de 2018, quando acabaram de eleger no final de setembro seus deputados.

Merkel recebeu apoio da liderança de seu partido, em conferência telefônica nesta segunda-feira. Armin Laschet, vice-presidente do CDU e ministro-presidente da Renânia do Norte-Vestfália, disse a jornalistas que os principais membrs do partido de Merkel expressaram forte suporte à líder, apesar do colapso das negociações.

— Não é do nosso interesse que o processo (alemão) se congele — disse o presidente francês, Emmanuel Macron, após conversar com Merkel.

Método Merkel chegou ao fim
No poder desde 2005, venceu as eleições legislativas de setembro, mas com o pior resultado desde 1949 para o seu partido conservador, que perdeu muitos votos em benefício do partido de extrema direita AfD, impulsionado pelo crescente descontentamento com o chegada de mais de um milhão de imigrantes em 2015-2016.

Agora que Merkel não conseguiu formar um governo, seu futuro político parece cada vez mais incerto. Especialmente porque sua ala centrista é contestada dentro de sua família política conservadora. O terremoto político é tal, em um país acostumado com negociações e compromissos políticos, que a revista de referência Der Spiegel escreveu em seu site que a Alemanha enfrenta seu "momento Brexit, seu momento (Donald) Trump".
São muitos os comentaristas, veículos de imprensa e cientistas políticos que preveem o "fim" da chanceler.

"É seu fracasso. Mostra que o método de Merkel - pragmatismo sem limites e uma flexibilidade ideológica máxima - chegou ao fim", aponta o Spiegel.
Mas, no caso de eleições antecipadas, não há garantias de que o novo resultado seja diferente do anterior.

O crescimento do AfD e sua entrada na Câmara dos Deputados levou à fragmentação da paisagem política e deu ao país uma Assembleia legislativa sem maioria evidente.
Este partido concentra seu programa num discurso anti-imigrantes, anti-islã e anti-Merkel.

Debate migratório
Por conseguinte, poderia capitalizar o fracasso da chanceler, especialmente porque foram a questão migratória e as consequências da generosa política de recepção de requerentes de asilo de Angela Merkel que fizeram fracassar as negociações.

As partes não chegaram a um acordo sobre um limite máximo do número de requerentes de asilo, nem sobre a questão de saber se todos ou apenas alguns dos refugiados deveriam ter direito ao reagrupamento familiar na Alemanha.

Os conservadores e os liberais querem conter absolutamente as chegadas, enquanto os Verdes desejam uma política mais generosa.

Esta manhã, os liberais, que abandonaram as discussões durante a noite, atraíam grande parte das críticas, com alguns políticos e editorialistas acusando-os de derrubar as negociações para fins eleitorais.

O ambientalista Reinhard Bütikofer até acusou Christian Lindner, líder do FDP, de "agitação populista". A pessoa em questão assegurou, por sua vez, que simplesmente as ideias e posições estavam muito distantes.

A situação na Alemanha também é uma má notícia para os parceiros europeus da Alemanha, especialmente a França, cujo presidente Emmanuel Macron apresentou em setembro propostas para o ressurgimento da União Europeia e da zona do euro.

A moeda comum também caía nos mercados asiáticos, enquanto na Bolsa de Valores de Frankfurt, o índice Dax abriu em queda de 0,47%.


O Globo

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Capítulo final

Editorial

A interrupção do pagamento da dívida venezuelana, levado a cabo nos últimos dias, não surpreende. No roteiro tristemente repetitivo do populismo latino-americano, a incapacidade de honrar compromissos quase sempre surge no epílogo dos desmandos que vão minando a economia e as instituições.

Após descumprir um pagamento de US$ 200 milhões em juros de sua dívida externa, estimada em US$ 150 bilhões, o país foi declarado em calote parcial pelas três principais agências internacionais de classificação de risco.

A crise descomunal –que fez a renda per capita retroceder 40% desde 2013, no processo de empobrecimento mais explosivo já observado na América Latina– entra agora em nova fase.

A inadimplência dificulta o acesso do regime de Nicolás Maduro a divisas estrangeiras, fundamentais para financiar importações de produtos essenciais.

O caos há muito está instalado. A inflação se aproxima de 1.000% anuais e escasseiam todos os tipos de mantimentos. As reservas cambiais não passam de apenas US$ 9,6 bilhões, tendo caído cerca de 75% em cinco anos.

Com a suspensão do pagamento da dívida, pode-se até conseguir um alívio de curto prazo, uma vez que o governo disporá dos recursos para outros fins. Países mais alinhados, como Rússia e China, além disso, podem proporcionar alguma sobrevida ao chavismo.

Entretanto o isolamento cresce e as opções da ditadura vão se estreitando. Em especial, com a imposição de sanções pelos EUA, que proibiram a compra por instituições americanas de novos papéis da Venezuela e da PDVSA, a empresa oficial de petróleo.

Também será cada vez mais difícil a participação no comércio exterior, dado que a Venezuela vem deixando de pagar as linhas de financiamento de importações –justamente as que propiciam acesso a mercadorias essenciais.

O Brasil já deixou de receber US$ 262 milhões no âmbito do Convênio de Créditos Recíprocos, mecanismo de liquidação de obrigações em moeda estrangeira entre os dois países, muitas delas garantidas pelo Tesouro Nacional.

Não se sabe exatamente, aliás, o quanto o Brasil está exposto ao risco venezuelano. Estima-se que o impacto possa se aproximar dos US$ 5 bilhões, resultantes da afinidade entre os governos petistas e chavistas desde a década passada.

Já tendo gerado colapso econômico, solapamento da democracia e escalada do crime, o regime de Caracas agoniza num capítulo final infelizmente já muito extenso.

Folha de São Paulo